08/11/2026
Por dentro do ATTO: a visita do DAAD à maior torre de observação climática do mundo
Os observadores atentos dessas tendências estiveram reunidos no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus, entre 21 e 23 de setembro, para a conferência anual do ATTO, realizada em conjunto com o Instituto Max Planck (MPG). As duas instituições são as parceiras que representam Brasil e Alemanha na empreitada de manter em atividade a maior torre de observação climática do mundo.
Para conhecer melhor o trabalho do ATTO, que é também o maior projeto de cooperação científica Brasil-Alemanha, o DAAD Brasil esteve presente na conferência e visitou a base do observatório, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uatumã, ao Norte de Manaus, no Amazonas. A visita incluiu subir os 1.500 degraus da torre até o topo e entender como funciona essa infraestrutura única. O DAAD Brasil estava acompanhado por jornalistas do podcast Ciência Suja, especializado em cobertura de ciência, para viabilizar entrevistas com vários pesquisadores envolvidos no ATTO, incluindo bolsistas e ex-bolsistas do DAAD – o material será publicado como podcast e videocast em todos os canais do Ciência Suja e do DAAD a partir do dia 29/10. Como teaser, publicamos este reel no Instagram com um resumo da empreitada. A iniciativa é parte do compromisso do DAAD de ter a divulgação científica como uma das prioridades de sua atuação enquanto agência de fomento à pesquisa.

A abertura da conferência foi feita por Beto Quesada (INPA) e Susan Trumbore (MPG), os coordenadores do ATTO pelo lado brasileiro e alemão, respectivamente. São eles os entrevistados do videocast, gravado em Manaus.
“A gente brinca que o ATTO é uma sentinela observando a Amazônia, que enxerga em uma escala praticamente regional, observando as variações da floresta ao longo do tempo. O ATTO está agora monitorando essa seca em tempo real. Você pode ver no site do projeto, por exemplo, que no mês passado [agosto de 2026] a temperatura do ar estava quase 2,5 graus acima da média histórica, e o quanto menos de precipitação tem. Conseguimos monitorar e ter uma base de dados de longo prazo. Variação em clima precisa ser observada em longo prazo”, pondera Beto Quesada, que acrescentou: “Dos últimos 20 anos na Amazônia, 11 tiveram eventos extremos”.
A seca atual a que ele se refere é atribuída a uma versão mais extrema do fenômeno climático conhecido como El Niño. Segundo Quesada e outros pesquisadores do ATTO, as medições do observatório mostram que o chamado Super El Niño já está em curso. Com ele, vêm as previsões de estiagem e seca severas, maior baixa no nível dos rios, maior risco de queimadas, piora na qualidade do ar e decorrentes efeitos sobre a saúde, ameaças à fauna e à flora, entre outras. Para entender os sinais que a floresta emite em variados cenários, mais ou menos extremos, o ATTO reúne pesquisadores de muitas áreas científicas – uma das marcas do projeto é justamente a transdisciplinaridade, o que permite cobrir quatro grandes áreas de pesquisa e entender melhor as conversas entre o céu, a floresta e o solo.
Confira a fotogaleria da visita ao ATTO e sua conferência no INPA:
“Em todas as áreas temos uma colaboração complementar e bem simétrica entre as equipes do Brasil e da Alemanha. A primeira delas é a de meteorologia e micrometeorologia, em que o Brasil é uma grande liderança. Outra é a de estudo de aerossóis e formação de nuvens, em que o Max Planck tem muita tradição. A terceira área é a de gases do efeito estufa, com forte contribuição alemã também. E a última é a de ecossistemas e biodiversidade, com estudo dos processos biológicos e ecológicos típicos da floresta. Nesse caso, o INPA tem um papel muito forte, devido naturalmente ao conhecimento local, que acaba sendo desproporcional”, explica Quesada.
Coordenadora do ATTO pelo lado alemão, Susan Trumbore explica que o monitoramento da torre nas diferentes áreas é fundamental para prever cenários futuros, mas também ajuda a entender o passado: “A parte central da Amazônia durante a estação chuvosa tem o ar mais limpo do planeta. Essa menor poluição do ar quando está chovendo muito faz uma janela para o passado, quando não havia tanta fumaça e poluição, como antes de 1900. É como se o que acontece na Amazônia pudesse mostrar um modelo de como funcionavam as outras florestas do mundo. Por isso, a torre é importante para conhecimento geral de como funcionam as florestas no clima do planeta”.
Investimento Brasil-Alemanha em capacitação e infraestrutura
Os coordenadores do ATTO, Quesada e Trumbore, abriram a conferência em Manaus apresentando alguns dos números impressionantes do observatório. Desde a implantação da primeira fase do projeto em 2009, por exemplo, …
- quase 250 pesquisadores concluíram seus doutorados ou mestrados com trabalhos no ATTO.
- foram produzidas cerca de 200 publicações com a pesquisa realizada no observatório.
- R$ 37,5 milhões já foram investidos para capacitação de pesquisadores e estão previstos mais R$ 65 milhões em bolsas e financiamento à pesquisa.
- quase 20 milhões de euros foram destinados pelo Ministério Federal da Pesquisa, Tecnologia e Espaço (BMFTR) da Alemanha ao projeto, por exemplo, para o financiamento de vagas para doutorandos e pós-doutorandos.

A Sociedade Max Planck, que coordena o projeto do lado alemão, é responsável por grandes aportes de verba e viabiliza a sofisticada infraestrutura do ATTO, que vai muito além da gigantesca estrutura de 325 metros da torre principal e todos os seus aparelhos de medição. A construção do ATTO começou em 2008 e as primeiras medições foram iniciadas em 2012 com torres de 80 metros, ainda em operação. Na segunda fase do ATTO, de 2018 a 2026, a torre principal se juntou às medições e foram criados outros sítios de observação no mesmo local, como o sítio da Campina. Todos contam com diversos instrumentos e estrutura de armazenamento e transmissão de dados, afinal, o que não faltam no ATTO são dados. Neste ano, o projeto entra em sua terceira fase e começa a se debruçar mais intensamente sobre a pesquisa das interações entre a floresta e a atmosfera em condições sem precedentes – um exemplo é o já citado monitoramento do Super El Niño, coordenado pelo pesquisador do INPA Cleo Quaresma.
A base do projeto conta, ainda, naturalmente com dormitórios e um refeitório, instalados em meio à floresta intacta. Para acomodar as dezenas de pesquisadores e a equipe fixa de manutenção do ATTO, entra em cena uma tecnologia fundamental: as redes. É nelas que dormem todos os visitantes do observatório, acompanhados pelos muitos sons da floresta.
Ex-bolsista do DAAD é gerente de dados do ATTO

A contribuição do DAAD ao projeto se dá por meio da concessão de bolsas de pesquisa, como as do programa de doutorado. Entre os ex-bolsistas presentes à conferência em Manaus, estava a bióloga Juliana Menger, atual gerente de dados do ATTO, que apresentou as políticas de utilização dos dados produzidos no observatório. Com 173 conjuntos de dados, mais de 620 usuários e cerca de 85 downloads por mês, o ATTO Data Portal tem o importante papel de disponibilizar todo o conhecimento gerado no ATTO para a comunidade científica. E Juliana Menger tem a difícil tarefa de garantir que esses dados estejam disponíveis segundo os princípios FAIR, criados em 2016 para melhorar a gestão, a publicação e o aproveitamento de dados científicos. O acrônimo representa quatro pilares fundamentais: Findable (Encontrável), Accessible (Acessível), Interoperable (Interoperável) e Reusable (Reutilizável).
Menger explica que, sem a chamada curadoria dos dados e dos metadados, não é possível que eles sejam interpretados e usados por outros pesquisadores, o que diminuiria muito o impacto do trabalho do ATTO. Segundo ela, diferentes conjuntos de dados coletados na torre permitem enxergar os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia:
“Posso citar três principais conjuntos de dados. Um são os dados de meteorologia, precipitação, temperatura e umidade, que mostram que os eventos extremos estão acontecendo de fato. A gente consegue ver a tendência desses dados. Com os dados de partículas, por exemplo, a gente consegue ver os efeitos das queimadas. […] Durante o período de seca aqui na Amazônia, a gente tem uma maior concentração dessas partículas na atmosfera. O outro conjunto de dados vem do sítio da Campina no ATTO, que trabalha muito com a formação das nuvens e analisa como essas partículas que são liberadas por fatores antropogênicos, como as queimadas, mas também as partículas liberadas dentro da floresta – com os compostos das árvores, os esporos dos fungos ou outros compostos biológicos – ajudam na formação das nuvens e, então, da precipitação aqui na Amazônia ou nos rios voadores lá em São Paulo”.
‘Ansiedade climática’ é parte do trabalho
Comprovar as tendências de agravamento da crise climática é naturalmente parte do trabalho cotidiano em um projeto como o ATTO, mas não necessariamente uma parte fácil dele. Perguntados sobre ansiedade climática, muitos pesquisadores dividiram angústias que atravessam quem está na linha de frente. Um deles foi o engenheiro agrônomo Gabriel Monteiro, oriundo do Pará e atual bolsista de doutorado do DAAD, que faz sua pesquisa no Instituto Max Planck de Biogeoquímica, em Jena, na Alemanha.

“Dói muito ser da região e ver o que acontece. Por exemplo, já teve campanhas em que vimos o garimpo ilegal e uma área de floresta que foi totalmente destruída e virou um deserto depois. A gente vê como a floresta sofre durante a seca e como as comunidades sofrem. É muito difícil se preparar mentalmente para isso. Eu vejo na pesquisa uma força justamente para tentar mudar as coisas. Tendo em vista a emergência climática e como isso afeta todo mundo, a gente precisa agir da forma que a gente pode. Politicamente as nossas decisões importam muito, principalmente na questão da expansão da agricultura na Amazônia. Manter a Floresta Amazônica de pé é economicamente a melhor coisa que pode acontecer para o país”, pondera Monteiro.

Para o pesquisador, um dos principais trunfos do ATTO é a valorização do conhecimento local no processo de condução das pesquisas, inclusive como doutorando no instituto em Jena: “Ninguém conhece a floresta tão bem quanto quem vive na região, isso é evidente. […] Ao invés de dizerem ‘Nós vamos fazer assim’, no ATTO perguntam ‘O que vocês acham de fazermos assim?’ ou ‘Como podemos melhorar isso?’. […] Eu vejo que na verdade não somos alunos, somos cientistas, funcionários do instituto e que estamos trabalhando juntos no mesmo projeto, com os mesmos objetivos”.
Colonialismo científico foi tema de palestra no INPA
A questão da valorização dos saberes amazônicos foi, inclusive, um dos assuntos da palestra da bióloga paraense Deliane Penha na conferência do ATTO no INPA. Ela abordou o tema do colonialismo científico e foi aplaudida de pé pelo público de mais de 170 participantes do evento. Penha chamou atenção para o papel de protagonismo que costuma ser atribuído a pesquisadores do Sul e do Sudeste do Brasil em estudos sobre a Amazônia e a tendência do universo acadêmico a relegar os pesquisadores da própria região a um papel secundário.
“Eu acho que nós estamos em um momento em que ainda estamos reconhecendo que esse colonialismo interno acontece. Porque a gente ainda não falava sobre isso. […] Eu sempre vivenciei isso, mas eu não sabia que nome dar. E tem um nome. Então, em outras áreas da ciência, esse colonialismo interno é discutido. Mas é verdade que, predominantemente, ele é discutido entre norte e sul global. Enquanto amazônida, eu consegui perceber exatamente por que eu sou daqui”, alertou a bióloga.

O pesquisador alemão e ex-bolsista do DAAD Sönke Zaehle, que coordena o grupo de pesquisa de monitoramento de gases atmosféricos do Instituto Max Planck de Biogeoquímica no ATTO, defende não apenas a importância de se valorizar o conhecimento local, mas do multilateralismo em um projeto que busca remediar a crise climática: “É bastante claro que se trata de um fenômeno global, impulsionado por problemas globais. E a solução consiste em que o mundo inteiro, em conjunto, tente enfrentar e resolver esse problema. Soluções isoladas não irão eliminar as mudanças climáticas nem ajudarão. E, por isso, a interação entre os Estados e a cooperação geopolítica são muito importantes”.








