08/11/2026
'Essas pontes foram possíveis graças às experiências como bolsista DAAD'
Nascida no agreste pernambucano, Mylena Queiroz seguiu sua trajetória acadêmica em Campina Grande, na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde cursou Letras e fez mestrado e doutorado em Literatura e Interculturalidade. Atualmente, é professora de literatura na Universidade Estadual do Ceará e escritora.
Mylena conheceu os programas de bolsas do DAAD durante sua pós-graduação e em 2020 foi bolsista do Programa Winterkurs, que possibilitou a realização de um curso de língua alemã na cidade de Aachen. Entre 2021 e 2022, realizou parte da sua pesquisa de doutorado na Universidade de Hamburgo por meio do Programa Auxílio para Doutorandos com Bolsa Nacional.
Por que se interessou pelo aprendizado de língua alemã e pelo Programa Winterkurs?
Mylena Queiroz: Enquanto pesquisadora de literatura, quanto mais lia Guimarães Rosa, mais me deparava com o interesse do autor por idiomas, por brincar com as palavras. A crônica “A velha” talvez se apresente um belo exemplo do interesse dele e de uma “infidelidade tradutória”, como disse Silviano Santiago sobre Rosa. A expressão “Embaixada-de-Jó”, termo rosiano, é apresentada no contexto em que pessoas seguiam ao Consulado para suplicar por ajuda. Hiobsbotschaft (Hiobs — Jó), do alemão, pode significar “Mensagem de Jó” ou, ainda, “más noticias”. Considerando que Botschaft significa Embaixada e Hiobs é Jó, Rosa, assim, “traduziu” a expressão “Mensagem de Jó” para o alemão e retraduziu ao português como “Embaixada-de-Jó”, dando um significado único em seu texto. Ao ler essa e outras crônicas escritas por Rosa sobre o período em que foi vice-cônsul em Hamburgo e ao notar trechos publicados do “Diário Alemão” dele, passei a estudar alemão paralelamente à escrita da tese. Nesse sentido, o Winterkurs, meu primeiro contato com a língua alemã na Alemanha, foi fundamental tanto para ampliar esse meu interesse, possibilitando minha compreensão sobre estruturas e ideias como o termo que apontei acima, quanto para construir uma ponte de contatos, de maneira que posteriormente pude retornar ao país.
Por que escolheu fazer parte da pesquisa de doutorado na Alemanha?
Mylena Queiroz: À medida em que crescia meu interesse pelo que viveu Guimarães Rosa no período de 1938 a 1942 na Alemanha como diplomata brasileiro, minha curiosidade sobre a relação dele com seus escritos e com o alemão aumentava. O Winterkurs possibilitou um contato inicial e retornar à Alemanha como pesquisadora do doutorado foi um ganho enorme para meu entendimento sobre o todo. Direcionei parte do tempo da pesquisa para escrever diretamente de Hamburgo e debater sobre essas produções do autor com estudantes alemães de literatura de língua portuguesa. Minha ida como pesquisadora se deu em anos difíceis para todos – de 2021 a 2022, embora já vacinada, vivíamos ainda a pandemia – e contar com o apoio do DAAD foi fundamental para mim, especialmente porque meu primeiro contato com o país foi apenas durante o Winterkurs.
Conte um pouco sobre a sua experiência na Alemanha durante as suas estadias de estudo e pesquisa.
Mylena Queiroz: Em especial sobre o período em que estive na Alemanha para escrita da tese do doutorado, posso dizer que consegui me debruçar sobre várias questões. Com a pesquisa na cidade de Hamburgo, consegui imagens do KZ Neuengamme, de onde é possível que Aracy de Carvalho e Guimarães Rosa tenham auxiliado a saída de pessoas do Campo de Trabalho para irem ao Brasil. Tive contato com a documentarista Adriana Jacobsen, diretora do documentário “Outro Sertão” (2013), e também com Detlev Heubel, filho de Márion Madsen e Helmut Heubel, personagens da crônica “Mau Humor de Wotan”, de Guimarães Rosa. Todos esses contatos e encontros reverberaram na minha tese “Transfronteira na obra de Guimarães Rosa: da Alemanha para-a-guerra das crônicas ao sertão mundo”.
O Winterkurs também me auxiliou a circular pelo país. Tive, ainda, a oportunidade de participar do Lusitanistentag (Congresso Alemão de Lusitanistas) como ouvinte em 2021. Posteriormente, em 2023, já com contatos estabelecidos, fui como convidada para o Lusitanistentag de Zwickau. Participei de debate, como convidada, na Universidade de Frankfurt com o tradutor Michael Kegler em 2024 e, também como convidada, estive no “Bodies, Remedies, Policies”, outra vez na Universidade de Frankfurt. Essas pontes foram possíveis graças às experiências como bolsista DAAD.

Qual conselho você daria para quem pensa em se candidatar aos programas de bolsa do DAAD?
Mylena Queiroz: Diria que certamente será uma experiência muitíssimo enriquecedora e que vale bastante o esforço de se dedicar a pesquisar programas e compreender bem como funcionam as inscrições. Há bastante relatos de bolsistas e ex-bolsistas, além de eventos virtuais, que me auxiliaram nesse processo e que podem auxiliar outras pessoas também.
Conte um pouco sobre seu trabalho atual e sua indicação ao Prêmio Odisseia de Literatura. Como sua experiência acadêmica na Alemanha contribuiu para esse resultado?
Mylena Queiroz: Atualmente sou professora de literatura na Universidade Estadual do Ceará e escritora. Publiquei Sangue de Cabra (2025), conjunto de cortes narrativos sobre meninas e mulheres buscando se livrar de horrores que as perseguem. São contos insólitos. Tenho me dedicado a ler e a pesquisar autoras femininas latino-americanas de literatura de horror, bem como a escrever nessa temática, o que me rendeu dupla indicação no Prêmio Odisseia de Literatura: como escritora de literatura, na categoria conto, e como pesquisadora, na categoria artigos fantásticos.
Posso dizer que todas as minhas experiências como acadêmica no exterior foram direta ou indiretamente possibilitadas pelos contatos que o DAAD me proporcionou. Isso significa que a internacionalização do meu trabalho foi motivada por essas experiências, assim como minha dedicação em estudar alemão, o que impactou também no meu interesse por escrever literatura. Em Sangue de Cabra, por exemplo, há “Maledicência”, conto mais longo do conjunto, em que uma pesquisadora de tupi potiguara e uma professora falante de alemão, ambas no interior da Paraíba, se deparam com um casarão que precisa de decodificação para que haja paz com a terra indígena local. O horror da narrativa é um entrelaçamento entre o horror da história, o desentendimento entre os idiomas e o estranhamento com o qual as personagens se deparam. Há, no entanto, algo de bonito sobre o elo das personagens: apesar das diferenças, há um esforço entre elas para que haja entendimento. Considero que as experiências como bolsista, pesquisadora e estudante de um novo idioma são um pouco isso também: esse esforço para desatar nós, uma confiança nos entendimentos. E, sem dúvida, uma aposta no desenho de um futuro possível.