Evento DAAD Alumni: Divulgação da ciência exige estratégia, linguagem acessível e credibilidade
O painel “Ciência em Diálogo com a Sociedade: a comunicação na construção de confiança e impacto”, com a participação das divulgadoras científicas Ana Bonassa e Laura Marise, criadoras do canal NuncaVi1Cientista, mostrou que a resposta não está em falar mais alto, mas fazê-lo da maneira certa, no lugar certo. Mediada pela jornalista científica Meghie Rodrigues, a discussão aconteceu no dia 29 de maio, em Brasília, durante o seminário de ex-bolsistas do DAAD “Redes de Competência Brasil – Alemanha: Alumni em Diálogo sobre Pesquisa e Mobilidade Global”.
O canal das duas cientistas – que hoje se dedicam exclusivamente à divulgação científica – é um exemplo de veículo que consegue alcançar um grande público. “A ideia de ‘furar a bolha’ nos levou a querer estar onde as pessoas já estão”, contou Bonassa. “Quando a pessoa está com o celular, em uma rede social, não quer consumir um conteúdo denso ou cheio de jargão. Nós também estamos nas redes sociais, e nós também não queremos consumir algo chato. Por isso, não vamos produzir algo chato. Sempre falamos: divertido não é o contrário de sério. É possível ser sério, ser informativo, ser comprometido. Divertido é o contrário de chato. Há espaço para tudo nas redes sociais, mas, se quisermos realmente disputar com quem está lá provocando desinformação, precisamos de uma linguagem que chegue às pessoas”, disse.

O desafio de chegar às pessoas, no entanto, esbarra em uma engrenagem desleal. A desinformação, alertou Marise, tornou-se profissionalizada e se fantasia de ciência. Isso cria um cenário, segundo Rodrigues, em que os divulgadores tentam resolver o problema “no varejo”, enquanto perfis desinformativos operam “no atacado”, publicando dezenas de vídeos falsos por dia. No caso do Nunca Vi 1 Cientista, a estratégia, por isso, não depende apenas do alcance direto do canal. “Nem todos vão se interessar por nossos vídeos”, reconheceu Bonassa. “Mas quem se interessa pode levar o que dissemos para quem não nos assiste, criando esporos de informação que vão se espalhando – e isso amplia o que falamos para muito além dos nossos seguidores”.
Mas falar a linguagem certa também pressupõe saber do que se está falando quando se trata de “comunicar ciência”. Rodrigues, que também apresenta o podcast Ciência Suja, destacou que comunicação científica, divulgação científica e jornalismo científico são conceitos diferentes e frequentemente confundidos. Comunicação científica é o que é comunicado entre pares: por meio da publicação de artigos, em congressos, seminários e afins. Divulgação científica é o movimento de levar o conhecimento ao público leigo. O jornalismo científico, por sua vez, é o olhar crítico e independente da imprensa sobre a ciência, com a cobertura de temas relevantes para a sociedade e, por vezes, espinhosos.
Pesquisador não precisa ser influencer, mas deve saber falar
Marise defende, inclusive, que não seja o próprio pesquisador que faça sua divulgação e que, além disso, a divulgação científica seja algo institucionalizado dentro das universidades e institutos de pesquisa. “Sou completamente contra a ideia de que todo cientista tem que virar divulgador de ciência. Ele já tem uma carga de trabalho absurda, administrativa, de pesquisa, de aula, de tudo. O ideal é que haja um departamento de divulgação em todos os lugares que trabalham com ciência”, opinou.

Mesmo assim, Rodrigues recomenda aos pesquisadores que saibam falar sobre seus estudos. “Não precisa ser um comunicador profissional, mas é necessário falar sobre sua pesquisa de forma clara e sem o ‘cientifiquês’. Nem todo jornalista de ciência é especializado e, mesmo os que são, não o conseguem fazer em todas as áreas. Imaginem que estão falando com alguém que não entende nada sobre sua pesquisa”, disse. “Tenha sempre em mente a pergunta: por que as pessoas deveriam se importar com essa pesquisa? Ela não é sua, é da sociedade”.
O seminário “Redes de Competência Brasil – Alemanha: Alumni em Diálogo sobre Pesquisa e Mobilidade Global” foi realizado nos dias 28 e 29 de maio de 2026, na Embaixada da Alemanha, em Brasília. Organizado pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) Brasil, pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo e pela Embaixada da Alemanha, o evento reuniu ex-bolsistas, cientistas e representantes de instituições públicas e privadas para fortalecer a transferência de conhecimento e a mobilidade circular entre os dois países. Em um contexto geopolítico em transformação, o encontro teve como objetivo reforçar a cooperação acadêmica bilateral como um instrumento estratégico, focando em áreas como saúde, sustentabilidade, inteligência artificial e governança para gerar parcerias baseadas em evidências.
Texto: Rafael Targino