Ciência, mobilidade e geopolítica: alumni do DAAD debatem o futuro da cooperação Brasil-Alemanha
Organizado em parceria com a Embaixada da Alemanha e o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo, o evento reforçou o papel da cooperação acadêmica bilateral no desenvolvimento dos países. Nesse contexto, foram mobilizadas redes temáticas para a criação de uma agenda prioritária de cooperação Brasil-Alemanha em cinco áreas estratégicas: Clima e Sustentabilidade, Digitalização e IA, Saúde e Biociências, Sociedade e Governança, e Formação de Professores de Alemão e Cooperação.
O seminário aconteceu durante a visita ao Brasil do presidente do DAAD, Joybrato Mukherjee – uma agenda de três dias que passou por São Paulo e Brasília e incluiu encontros com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a Universidade de São Paulo (USP), a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo e com autoridades do Judiciário e de fomento à pesquisa. A visita reforçou o Brasil como parceiro estratégico prioritário para a cooperação acadêmica alemã.
Abertura

Katharina Fourier, diretora do DAAD Brasil e do DWIH São Paulo, destacou que a ideia do evento surgiu logo no início de sua atuação no Brasil, em diálogo com a embaixadora da Alemanha, Bettina Cadenbach, durante sua primeira visita oficial à Embaixada. A conversa partiu da pergunta sobre como intensificar ainda mais a cooperação entre o DAAD, a Alemanha e a rede de ex-bolsistas no Brasil. A resposta foi a proposta de um encontro voltado ao aprofundamento da cooperação científica, da mobilidade acadêmica e do papel dos alumni como ponte viva entre Brasil e Alemanha. Fourier também é ex-bolsista do DAAD.
Cadenbach destacou o momento favorável nas relações bilaterais e a relevância do encontro para além do protocolo diplomático. Ela mencionou os acordos assinados nas conferências intergovernamentais recentes em áreas de cooperação como proteção climática, regulação de redes sociais, inteligência artificial, pesquisa agrícola, física de partículas e cibersegurança. “A Alemanha é e permanece uma parceira segura e confiável para o Brasil”, afirmou, acrescentando que os dois países compartilham hoje uma agenda de defesa da democracia e da ordem baseada em regras.
Em mensagem de vídeo, a ministra federal alemã de Pesquisa, Tecnologia e Espaço, Dorothee Bär, destacou o papel dos alumni como expressão concreta das relações bilaterais: “Vocês são exemplos do que as relações significam na prática: ser curioso sobre o outro, aprender a língua e a cultura, estudar juntos e, muito depois disso, trabalhar juntos para desenvolver ideias e projetos que trazem progresso para os dois países”.
Mukherjee, por sua vez, situou o evento na história centenária da organização e lembrou que, com mais de 3 milhões de pessoas apoiadas ao longo de cem anos, a instituição mantém no Brasil uma presença consistente há mais de 50 anos: “O impacto real começa depois que a bolsa termina. Como nossos alumni, vocês são embaixadores do intercâmbio internacional, multiplicadores de conhecimento e construtores de pontes entre países, disciplinas e setores”.
Ciência como poder

O primeiro grande momento do seminário foi o painel “Alianças em Movimento: Cooperação Acadêmica em Tempos de Transformação Geopolítica”, que reuniu Mukherjee, Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, Olival Freire Jr., presidente do CNPq, Rui Oppermann, diretor de Relações Internacionais da Capes, e Draiton Gonzaga de Souza, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
O debate mostrou que o antes chamado soft power – ciência, intercâmbio acadêmico, cooperação em pesquisa – tornou-se uma moeda concreta de poder geopolítico e um instrumento de hard power. Brasil e Alemanha, argumentou Mukherjee, compartilham não apenas interesses científicos, mas valores: democracia, liberdade acadêmica e crença na ciência como bem público.
Alumni em destaque

A programação do seminário também abriu espaço para ex-bolsistas de destaque. No Fórum de Talentos Alumni, moderado por Fabíola Gerbase, diretora adjunta do DAAD Brasil, cinco pesquisadores apresentaram suas trajetórias em formato de pitch, evidenciando o impacto de suas experiências na Alemanha. Foram eles Tatiana Sampaio, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e autora de pesquisa sobre a polilaminina na regeneração de lesões da medula espinhal; Rodrigo Pastl, diretor do Parque Tecnológico do Ceará e doutor pela Universidade Técnica de Berlim em Engenharia de Manufatura e tecnologias da Indústria 4.0; Mercedes Bustamante, professora e diretora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) e ex-presidente da Capes; Hiaman Rodrigues, diplomata e ex-bolsista do programa Hochschulwinterkurs em 2018; e Giselly Brasil, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com pesquisa de doutorado desenvolvida no Departamento de Teatro da Universidade Justus Liebig, em Giessen.
Em seguida, uma galeria aberta de networking permitiu que outros dez ex-bolsistas apresentassem pôsteres sobre suas trajetórias, ao lado de representantes de instituições alemãs como DAAD, DWIH São Paulo, Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), Goethe-Institut, Freie Universität Berlin, Universidade de Münster, Universidade Técnica de Munique (TUM), Aliança Universitária do Ruhr e Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK) Rio de Janeiro.
O bloco se encerrou com o fórum “Fair Talent Exchange: Mobilidade internacional como instrumento de desenvolvimento científico”, que combinou a apresentação de oportunidades de pesquisa e fomento com um diálogo sobre mobilidade e cooperação internacional com ex-bolsistas e representantes de universidades e empresas.
Ciência em diálogo com a sociedade

O segundo dia foi aberto com o painel “Ciência em Diálogo com a Sociedade: a comunicação na construção de confiança e impacto”, que trouxe para o centro do debate o tema da comunicação e divulgação científicas. Mediada pela jornalista e apresentadora do podcast Ciência Suja Meghie Rodrigues, a discussão contou com as divulgadoras científicas Ana Bonassa e Laura Marise, fundadoras do canal Nunca Vi 1 Cientista, e debateu as estratégias para levar ciência ao público em um ambiente digital dominado pela desinformação. A conversa explorou as diferenças entre comunicação científica, divulgação científica e jornalismo científico e propôs a institucionalização da divulgação científica por parte das universidades, ao invés de deixá-la a cargo dos pesquisadores de maneira individual.
O segundo dia foi também o momento de trabalho em grupos. Coordenados por Anja Grecko Lorenz (DWIH São Paulo) e Sören Metz (TUM), os Fóruns de Pesquisa e Inovação dividiram os participantes em cinco grupos temáticos – saúde e biociências; digitalização e inteligência artificial; sociedade e governança; clima e sustentabilidade; e formação de professores de alemão – para debater agendas concretas de cooperação bilateral. Cada grupo trabalhou de forma autônoma por cerca de 90 minutos e apresentou seus resultados ao plenário. O DAAD e o DWIH São Paulo vão sistematizar as propostas para implementação e identificar sinergias com programas e linhas de financiamento existentes.
Texto: Rafael Targino