Green Skills na COP30: Falta de qualificação é entrave para transição energética global
O painel, uma realização do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo, do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), do German Council on Foreign Relations (DGAP) e do Heidelberg Center for the Environment (HCE), ligado à Universidade de Heidelberg, reuniu nomes como Annika Schäfers (Ministério Federal de Assuntos Econômicos e Energia da Alemanha – BMWE), Bernardo Strassburg (Instituto Internacional para Sustentabilidade – IIS – Rio), Camila Nobrega (Beyond the Green/Freie Universität Berlin), Katharina Fourier (DWIH São Paulo e DAAD Brasil), Kira Vinke (Center for Climate and Foreign Policy, DGAP), Mônica Cavalcanti Sá de Abreu (professora titular da Universidade Federal do Ceará – UFC) e Susanne Melde (Organização Internacional para as Migrações – IOM). A moderação ficou a cargo do professor Max Jungmann, do HCE.
“Precisamos de diferentes habilidades de informação, de diferentes habilidades de comunicação e de gestão, de conhecimento técnico, conhecimento sobre transformação. Vemos que isso abrange muitos setores distintos. Portanto, se não formos capazes de construir a capacidade para treinar pessoas, a transição para a neutralidade climática será retardada. E há também projeções de que isso desaceleraria o desenvolvimento sustentável ou o desenvolvimento econômico em si”, afirmou Jungmann.
Escassez

Segundo Vinke, do DGAP, a escassez de mão de obra é um desafio em vários países. E este quadro acontece em meio a um debate na União Europeia sobre políticas migratórias, que podem impedir a entrada de pessoal qualificado. A especialista apresentou um estudo que identifica a falta de 216 mil trabalhadores em energias solar e eólica na Alemanha. “Se olharmos para a demanda de trabalho intersetorial para o caminho da neutralidade climática, isso poderia chegar a mais de 700 mil pessoas. Cerca de 40% dos trabalhadores qualificados se enquadram em grupos ocupacionais nos quais existe essa escassez”, disse.
E a transição verde depende também de imigrantes que não são superqualificados, pontou Susanne Melde, da OIM. “Um estudo do LinkedIn, em 48 países, mostrou que a demanda por ‘green skills’ estava aumentando duas vezes mais que a oferta. Mas também seria importante olhar para os trabalhadores menos qualificados. Muito do que vemos são trabalhadores altamente qualificados, mas, na agricultura e em outros setores, também se precisa de trabalhadores menos qualificados. No entanto, quase não há vistos ou programas que esses migrantes possam acessar”, lembrou.

Annika Schäfers, representante do BMWE, lembrou que, por mais que a transição verde possa gerar um saldo líquido positivo de um grande número de empregos, é preciso aproveitar as mudanças para mitigar problemas do setor – como a desigualdade de gênero e a provável desigualdade geográfica. “O que observamos é que há um impulso crescente em ir além da discussão técnica sobre a transição energética e ação climática e abordar também os aspectos sociais da transição. Na Alemanha, como em muitos outros países, o setor de energia está longe de ser equilibrado em termos de gênero. Temos mais homens do que mulheres trabalhando no setor, e os homens tendem a ganhar mais do que as mulheres com o mesmo nível de habilidade”, relatou.
Educação, intercâmbio e pesquisa
A diretora do DWIH São Paulo e do DAAD Brasil, Katharina Fourier, ressaltou como o ensino superior e a cooperação acadêmica são fundamentais no processo de formação em habilidades verdes, ao traduzir estratégias diplomáticas e institucionais em ações práticas pelo clima.

“As universidades são laboratórios de decisão. Por meio de currículos conjuntos e pesquisas, elas conectam a ciência climática à economia, engenharia, direito e ciências sociais, integrando a sustentabilidade na forma como o conhecimento é criado e aplicado. Por sua vez, a mobilidade acadêmica oferece acesso a oportunidades verdes e permite que estudantes de diversas origens e regiões não apenas se adaptem à transição verde, mas também ajudem a moldá-la. Muitos ex-alunos retornam como multiplicadores, modernizando currículos, aconselhando municípios ou fundando empreendimentos que conectam a pesquisa à inovação social”, disse.
Para a professora Mônica Abreu, que lidera o Laboratório de Estudos em Competitividade e Sustentabilidade (LECoS) da UFC, as universidades, mesmo que ainda não tenham o debate sobre habilidades verdes completamente desenvolvido, devem assumir uma posição de liderança, sempre em busca de colaboração entre os diferentes entes. “Os mecanismos de financiamento nacionais e internacionais de ciência, tecnologia e inovação têm uma função muito importante nessa área como uma ponte para a indústria, desenvolvendo soluções e integrando caminhos tecnológicos para a descarbonização e demandando habilidades verdes, podendo assim ajudar a reduzir o gap tecnológico brasileiro. A palavra-chave é ‘sinergia’: a universidade, junto ao governo e à indústria, pode fazer a ponte neste caminho”, afirmou.
Novas profissões, velhos problemas de financiamento
Strassburg, do IIS Rio, chamou a atenção para um problema: o financiamento. A transição verde irá criar profissões e transformar algumas que já existem. Mas, para isso, é necessário treinamento em empregos que classificou como de “altíssima qualificação para o novo setor de uso da terra no século 21”. O desafio é encontrar os recursos para pagar por essas novas formações.

“No Brasil, e em múltiplos acordos de cooperação multilaterais e bilaterais, às vezes há financiamento para quase tudo, exceto para a ciência e a educação dentro desses programas. Quando se lança uma cooperação em termos de conservação ou restauração da natureza, um elemento-chave para que esses programas sejam bem-sucedidos é termos as pessoas certas nos lugares certos. Portanto, é preciso reservar parte do financiamento para o desenvolvimento da ciência, para a informação, para ferramentas de apoio à decisão, mas também para treinar as pessoas que depois executarão essas políticas”, opinou.
Mas, ao mesmo tempo em que é preciso financiamento e tecnologia, não se pode esquecer de quem conhece os territórios. A jornalista Camila Nóbrega apontou que o erro está em chegar ao local e propor a imposição de determinadas “habilidades” a populações locais. “Entender nossas próprias vulnerabilidades e nossas próprias limitações reais é parte da colaboração, já que podemos também entender onde a outra perspectiva começa. Os povos indígenas têm o direito de existir [por si só], não por terem uma utilidade. Isso também vale para todos nós, por exemplo, como trabalhadores migrantes. Não é apenas que não queremos ser úteis para algo, mas queremos construir juntos. E isso é como começar do começo, não no final do processo”, disse.
Texto: Rafael Targino